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Leis da natureza em cheque?

Tinha que ser mesmo polêmica a recente decisão unânime do Supremo Tribunal Federal que reconhece a união homossexual como verdadeiro contrato civil, equiparado ao matrimônio “convencional” homem-mulher e até mesmo capaz de formar família, com todos os seus direitos e status. O que está em jogo é muito mais do que um lobby religioso ou resquícios da cristandade medieval – tempo em que as posições da Igreja eram muito consideradas nas decisões políticas -, como acusam alguns defensores eufóricos do “Estado laico”. Parece-me que a questão é muito mais profunda e filosófica do que insistem em afirmar.

Primeiramente, vale uma consideração sobre os termos: estão alegando que se deve dizer homoafetividade e não mais homossexualidade, trocando assim o conceito de sexo (macho e fêmea) pelo de gênero. Com isso, querem afirmar que o importante não é o que vem determinado pela natureza, pela herança genética ou biológica (sexo masculino ou feminino), mas sim o que é escolhido pelo indivíduo (gênero masculino ou feminino, independentemente do órgão genital). Ao meu ver, há um sério problema etimológico aí, porque homoafetivo significa “afeto entre iguais”, o que pode designar também amizade, coleguismo, etc; enquanto relação homossexual poderia significar tanto  “relação com o mesmo sexo” quanto “sexo entre iguais”.

Afinal, existe mesmo uma “natureza humana”, ou não? A moral cristã ensina justamente que deve ser evitado tudo o que vai “contra a natureza”: se a própria constituição biológica humana aponta para a complementaridade sexual entre o homem e a mulher, isso é uma lei natural; e tudo o que contraria essa lei inscrita na natureza e na consciência humana é, portanto, antinatural e não legítimo.

Mas as correntes de pensamento surgidas a partir da revolução sexual do século XX abominam esse conceito de lei natural, afirmando que o ser humano é uma construção que parte do contributo genético, sim, mas muito mais do contexto cultural e da própria livre decisão, isto é, a partir de suas preferências, seus gostos pessoais. Assim, afirmam os defensores dessa teoria, qualquer pessoa pode escolher um gênero, masculino e feminino, tanto para a sua identificação na sociedade como para sua realização afetivossexual; e não pode haver absolutamente qualquer predeterminação da natureza, da cultura ou da família sobre o indivíduo, que o pressione a se comportar sexualmente desta ou daquela maneira…

O que está por trás dessa argumentação toda é a absolutização perigosa dos ideais democráticos e a ampliação sem limites do sufrágio universal para todos os âmbitos da humanidade, supondo a ideia de que nós podemos votar, opinar e decidir sobre todo e qualquer aspecto da nossa vida pessoal e social. Não existe Deus, não existe natureza, não existe força alguma que venha nos dizer o que somos e o que devemos fazer.

Se não existisse natureza humana, então não existiria identidade humana. Então Kaspar Hauser não seria um homem e sim um bicho; o feto não seria um ser humano, como afirmam os abortistas; os judeus não seriam humanos, como acreditava Hitler… E tudo seria legítimo, desde que aprovado pela “maioria”, pela nova cultura, pelo modismo do momento no Estado laico. Se pudéssemos mesmo “revogar” as leis da natureza, tentaríamos até mesmo, por decreto de lei ou jurisprudência no Supremo, derrubar a lei da gravidade.

 

Pe. Juliano Ribeiro Almeida
Sacerdote Diocesano
Pároco do IBC – Nossa Senhora das Graças
Diretor do Jornal “O Diocesano”

Comentário(1)

  1. Reply
    Mayla says

    Totalmente de acordo com a opinião do senhor Padre Juliano. Acredito que está havendo mesmo uma exclusão das leis da natureza em favor de interesses próprios e por sinais egoístas, pois privam o ser humano de alcançar em Cristo sua salvação, o incentivando a viver de uma forma totalmente desumana, o que desagrada ao nosso Senhor Deus!!

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