Criatividade que vira lei Pe. Juliano Ribeiro Almeida
11-09-2009
Artigo de Pe. Juliano
São João da Cruz, na obra Subida do Monte Carmelo, fala de algo muito atual em nossas comunidades cristãs: “Deixem o sacerdote celebrar a santa missa do modo e maneira conveniente, segundo a liturgia determinada pela Igreja. Não queiram usar de novidades, como se tivessem mais luz do que o Espírito Santo e a sua Igreja. Se não são atendidas por Deus numa forma simples de oração, creiam que muito menos as ouvirá o Senhor por meio de todas as suas múltiplas invenções” (Livro III, capítulo XLIV, n. 3).
Muito se discute e até se briga no interior das comunidades pelo que é ou não litúrgico, o que se pode e o que não se pode fazer sobretudo nas celebrações eucarísticas, nos momentos de adoração ao Santíssimo Sacramento e nas celebrações ao redor da Palavra de Deus. Por um grande engano, pode ficar parecendo que a sagrada liturgia – o culto público que Jesus Cristo oferece ao Pai no Espírito Santo por meio da Igreja – pertence àquela comunidade, ao gosto do padre fulano ou às decisões que a coordenadora tal tomou. E não é assim. Justamente o que diferencia a Igreja Católica das demais denominações religiosas é que ela, ao longo da vastíssima Tradição, herdou dos apóstolos e dos santos padres o patrimônio artístico e teológico que é a sagrada liturgia, celebrada até hoje em unidade por todo o mundo. Se a liturgia é esse patrimônio histórico vivo que a Igreja recebeu e continua recebendo do Espírito Santo, isso significa que ninguém tem o direito de contrariar as prescrições normativas dos rituais, ao seu bel prazer mudando elementos essenciais de lugar, de sentido ou de grau de importância. Dizem que a norma foi escrita para poder ser transgredida; mesmo se fosse, não se poderia transformar a transgressão em outra norma, como tem sido feito.
A criatividade de muitas equipes acaba ultrapassando todos os limites do tolerável. Por exemplo: de onde tiraram a quase obrigatória “entrada da Bíblia”? Qual o sentido das velas coloridas? Quem autorizou o balé e a coreografia dentro da missa, como se fosse um lugar de espetáculo? De onde tiraram esse excesso de panos, mesas e suportes pra tanto entulho no espaço litúrgico? Será que não se nota que os símbolos artificiais – pão de isopor, caixa em forma de coração – e os exageros de cores e formas, as fitas, laços, babados, faixas, cartazes etc são de mau tom e mau gosto? Será que não percebem o ridículo que é fantasiar pessoas de personagens bíblicos ou santos, como se a liturgia fosse teatro e de baixa qualidade cênica e estética? Não se tem o direito de jogar no lixo hinos trazidos a nós da própria Escritura ou dos primórdios da Igreja, como o Gloria e o Sanctus, substituindo-os por quaisquer outras composições. Não é que os alternativos sejam feios; apenas são inadequados para esta circunstância. Alguém ousaria simplesmente substituir o Hino Nacional Brasileiro, na posse de um presidente da República, pelo hino do Flamengo ou do Vasco da Gama? Seria um completo despropósito! Até porque uma cerimônia como a posse de um presidente pede aquilo que é comum a toda a nação e não aquilo que nos dividiria. O mesmo se dá na liturgia: se o time A “prefere” essa música tal, isso não lhe dá o direito de obrigar toda a assembleia litúrgica a concordar com o seu gosto. A única solução é executar os hinos próprios que a sagrada liturgia prescreve.
Isso, em teoria, é belo e simples. Na prática, contudo, as coisas são mais polêmicas já que, por outro lado, surgem questões pertinentes: por que o litúrgico muitas vezes é o mais feio e sem harmonia e o não-litúrgico vem tão bem arrumado? Boa pergunta. Talvez seja porque falta aos membros mais litúrgicos da comunidade a arte musical que sobra nos membros nada sintonizados com a liturgia... Tudo pode ser superado se as coisas forem tratadas com mais maturidade e diálogo, ultrapassando o grosseiro “pode-não-pode” para alcançar o somatório de forças, sem implicância, má vontade ou vaidade. Outro critério decisivo para preparar bem as liturgias é que se deem menos importância às preferências de determinados padres e freiras e às apostilas de cursinhos por aí e se coloque no devido lugar a Instrução Geral do Missal Romano e os livros sérios de teólogos, com aprovação eclesiástica.
Pe. Juliano Ribeiro Almeida Sacerdote Diocesano Pároco do IBC - Nossa Senhora das Graças Diretor do Jornal "O Diocesano"