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Dois acadêmicos incompatíveis
Pe. Juliano Ribeiro Almeida
11-09-2009
   
Artigo de Pe. Juliano

Quem assistiu ao filme Calígula pôde ver o nível moral a que chegou o senado no Império Romano. Nada mais grave do que estamos vendo no senado brasileiro. Os acontecimentos estampados nas últimas semanas nas manchetes expõem ao completo ridículo essa instituição republicana dita necessária para a democracia.

A cena seria cômica se não fosse trágica: o presidente da casa, senador José Sarney (PMDB-AP), fazia nessa semana um discurso em homenagem ao ilustre escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, falecido há exatos 100 anos. O discurso de Sarney foi interrompido pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que lhe exige explicações sobre as denúncias engavetadas pelo Conselho de Ética, pedindo sua renúncia. Sarney encerra o assunto dizendo que aquilo era uma afronta à memória de Euclides da Cunha. E simplesmente não responde às acusações.

Justiça seja feita: Euclides da Cunha, vivo estivesse e senador fosse, seria o primeiro a enfrentar naquela casa a arrogância do seu confrade Sarney (ambos são imortais da Academia Brasileira de Letras). Euclides, ainda jovem, foi expulso do exército imperial brasileiro quando, num desfile militar em homenagem ao ministro de guerra, saiu da fila e jogou sua baioneta aos pés do homenageado em protesto contra a monarquia. Sua morte também se deu numa situação deprimente: ele se vira traído por sua esposa; tentou se vingar do amante e acabou sendo assassinado por ele. O homem homenageado por Sarney foi um inquieto diante da injustiça e da hipocrisia; alguém que a sociedade tentou conter em nome da “etiqueta política” que ele, já no início da república, questionou profundamente.

E há mais coincidência para conseguirmos rir daquela cena trágica no senado: Euclides da Cunha brilhou justamente como jornalista correspondente do jornal O Estado de São Paulo, o mesmo centenário veículo de comunicação que agora teve a coragem de publicar as conversas que comprovam corrupção na dinastia Sarney; o mesmo jornal que os Sarney conseguiram agora censurar.

Deixando a alta literatura dos acadêmicos de lado, Suplicy tentou em seguida um apelo bem popular no Brasil: mostrou cartão vermelho para Sarney, exigindo que ele seja “expulso de campo”. Mas quem presidia a sessão era o correligionário de Sarney, senador Mão Santa (PMDB-PI), que escrachou no mesmo jogo de linguagem: “quem está com o apito aqui sou eu”. Não tem jeito mesmo. Um senado assim faz inveja à imoralidade do próprio Calígula.
 
 
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Pe. Juliano Ribeiro Almeida
Sacerdote Diocesano
Pároco do IBC - Nossa Senhora das Graças
Diretor do Jornal "O Diocesano"
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